Pesquisar este blog

sábado, 30 de julho de 2011

Distantes de nós mesmas


 Alguma vez você já se sentiu só? Você já procurou entrar fundo nesse sentimento de solidão para perceber o que acontece?
No vocabulário de língua portuguesa a palavra "solidão" significa: estado de quem se sente ou está só.
A solidão é um estado interno, a princípio um sentimento de que algo ou alguém está faltando. Uma sensação de separatividade e desconexão com algo ainda inconsciente, sendo que numa visão espiritualista é a separação de Deus, Eu Superior, Self, Vida ou o Todo.
Cada ser humano vem sozinho ao mundo, atravessa pela vida como uma pessoa separada e morre finalmente sozinho. As fases de passagem pela vida física e para além dela trazem muitas experiências, onde tudo é passageiro e impermanente. As situações, os encontros e os fatos da vida surgem, permanecem por algum tempo e se vão.

De fato, os seres humanos não nasceram para viverem sós. Nós somos seres gregários, precisamos da companhia, do carinho, da proteção, da amizade, do compartilhar. É na troca dentro das relações ou papéis que representamos, que desenvolvemos competência para interagir com cada um deles, pois na vida humana o que nos diferencia dos nossos irmãos animais são os processos de aprendizado estabelecidos na relação com seu semelhante. O pior tipo de solidão é aquela que mesmo em companhia de pessoas queridas, sentimos o vazio, a falta de alguém ou algo. Na solidão é onde mais crio, mais tenho pensamentos dialéticos, e onde me sinto mais produtiva, creio que quanto mais produzo, mais me distancio de mim mesma. Na solidão estou sempre lendo, ouvindo, escrevendo, interagindo, mas curiosamente só.

Solitários de plantão, permitam-me um dica amorosa: a solidão não existe, ela é o abandono que pratico comigo mesma. Eu tenho em mim a dose de amor correta de tudo aquilo que necessito e se me der este amor, se entender que sou eu que curo as minhas relações e não a presença do outro, de quem ainda me mantenho dependente, em pouco tempo poderei estar inteira para viver uma gostosa relação de amor com meu próximo.

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência!
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio!
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente... Isto é um princípio da natureza!
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância!
Solidão é muito mais do que isto...
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.
Esse texto partiu de um diálogo com uma jovem amiga de apenas 23 anos, creio eu que ela se perdeu de si mesma, no momento, no vazio de quem se perdeu de si. Nesse diálogo nos identificamos muito. Me sinto só, mesmo quando estou trabalhando com mais de quarenta e cinco pessoas ao mesmo tempo ou em sala de aula com maravilhosos colegas e brilhantes mestres. Descobri nesse retiro em diálogo com minha jovem amiga que não se morre apenas de enfarte ou de dengue, mas também de solidão e de saudade.
Minha querida e companheira, creio eu que se houver reencontro de outras vidas, já nos vimos muitas vezes em muitas vidas. Bom, sou cética, a minha fé passa pela teoria da libertação, acredito mesmo que o nosso encontro seja um encontro ideológico e que venceremos nossa solidão num debate profundo, em transformação da realidade do nosso povo. Povo esse que somos parte dele.
Deuzely, minha jovem amiga, espero que você se encontre em breve. Respeitosamente.




 Jucilene Pereira Barros




Olhando para as mulheres de Goiás: os três tipos


Os Três tipos da mulher goiana na busca pelo reconhecimento político e social, destacar-se socialmente no estado de Goiás, o papel social desempenhado pela mulher na história do estado. Não é algo fácil.
Especificamente, visa contribuir para o avanço da história enquanto ciência, dentro da compreensão de que uma construção histórica só ganha veracidade quando pautada nas relações de gêneros, e que qualquer informação sobre a experiência histórica feminina só encontra sentido e significado quando relacionada com a informação sobre a experiência histórica masculina que lhe é correspondente.
Para trabalhar a relação de sentido das ações humanas, recorremos ao “método compreensivo” de Max Weber e ao seu conceito de “tipo ideal”.
Esse pensar consta em quatro capítulos. No primeiro, A Mulher em Goiás, buscamos compreender a realidade em que a goiana está inserida e onde explicita-se, através das relações sociais estabelecidas, os três tipos femininos enfocados por esse olhar: a concubina, a matriarca e a intelectual.
Hoje na contemporaneidade, a concubina é citada juridicamente como união estável. No segundo, a mulher como modelo, A Concubina, procuramos destacar as relações sócio-econômicas que permitem considerar a concubina como o tipo ideal de mulher no estado de Goiás na história e na contemporaneidade.
No terceiro, A Matriarca, pretendemos apreender as condições sociais e econômicas da época, as quais resultam na economia de subsistência que, por sua vez, normatiza, para a mulher, o papel de matriarca.
No quarto, A Intelectual, preocupamo-nos em demonstrar os fatores que possibilitaram, para o estado de Goiás, uma vida cultural não muito diferente dos outros estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, etc. e que reservaram, para a goiana, o papel de intelectual.
Esse olhar para a história da mulher em Goiás levou-nos à constatação da participação ativa e significativa da mulher na construção da história do estado de Goiás, e a concluir que a recuperação social e histórica de suas ações abrem novas possibilidades para a construção do saber histórico, oferecendo novos e diferenciados objetos de conhecimento para a história goiana.
O estado de Goiás, por tanto tempo, berço da cultura goiana, cheia de lendas e mistérios, sempre me instigou, principalmente pelo contraste existente entre a exuberância da mulher goiana, é só observarmos nas ruas, nos shoppings, nas universidades e por onde andarmos, mulheres cheias de atitude, do que se fala sobre ela e a modéstia do que sobre elas se escreveu. Nas histórias faladas, contadas, a mulher está sempre presente, sem qualquer neutralidade, exibindo as marcas de sua diferença sexual e o desembaraço de suas ações. No entanto, na restrita historiografia existente, uma pergunta se impõe: onde está a goianiense? Onde se ocultaram suas ações?
Cabe, então, indagar como o fez Joan Scott: “por que (e desde quando) as mulheres são invisíveis como sujeitos históricos, ainda que nós saibamos que elas participaram de grandes e pequenos eventos da história humana?” Aqui em Goiás, num passado recente tivemos grandes mulheres, como a minha antecessora de Federação Rosa Mônica e no presente grandes mulheres ocupam secretarias municipais e estaduais, estão à frente das universidades, doutorandos, mestrandos, desenvolvendo ciências, construindo um novo modelo de política para o estado. Mesmo assim ainda invisíveis.
Apesar de sua invisibilidade, sabemos que a mulher sempre ocupou um espaço de grande importância na história do estado de Goiás. O registro de sua ação, nesse espaço, significa fator de desvelamento histórico, pois que, a continuar oculta, compromete a compreensão das tensões que forjaram a história do estado.
Assim sendo, o objetivo específico que pretendemos atingir, não é o de “incluir a experiência feminina em uma narrativa histórica já elaborada”, mas sim o de interferir na “construção do saber histórico”, na medida em que “a reconstrução histórica das relações de gênero recupera a importância dos papéis femininos como novos e diferenciados objetos de conhecimento que necessariamente interferem na construção de um saber histórico.” Trata-se, pois, de indagar “sobre o sujeito ou sobre os sujeitos responsáveis pelo movimento histórico”, resgatando, para a mulher, seu espaço e sua significação histórica.
O presente olhar, que nasceu da minha atração pela magia das velhas histórias do atual estado do Tocantins, antigo estado de Goiás, contado por homens e mulheres na fazenda onde morei, em frente às fogueiras em noite de lua e na escola rural onde estudei, tem o objetivo de destacar o papel desempenhado pela mulher, não só nessas histórias, como também na construção da sociedade goiana, sociedade instigante, encantadora e até mesmo insólita.
Onde se esconde a mulher goiana, que encontramos em pequenos números nas câmaras municipais, estaduais e federais, mas se voltarmos nossos olhares com ternura, encontraremos grandes mulheres anônimas, lutando por um espaço nas universidades para concluírem seus cursos, esmagadas dentro dos ônibus, em filas enormes nos terminais de ônibus, esmagadas pelo sistema capitalista atual. Esse olhar não é de nem um grande pensador da história antiga como Marx e outros e nem tenho a pretensão de ser. Sou apenas uma mulher que trabalha e olho para outras mulheres que trabalham e estudam e vivem como eu.
Nesse texto quero agradecer todas as mulheres e externar minha enorme admiração pelas heroínas anônimas que vivem nas filas dos ônibus, trabalhando durante o dia e estudando a noite para concluírem seus cursos, as trabalhadoras domésticas, as modernas trabalhadoras da construção civil e as anônimas donas de casa.

Jucilene Pereira Barros

terça-feira, 26 de julho de 2011

O pai e o ninho, o ninho e o pai



Que felicidade enche o coração de um pai quando o filho que ele tem no colo se abandona e adormece! Adormecida, a criança está dizendo: “tudo está bem; não é preciso ter medo“. Deitada adormecida nos braços-ninho do seu pai ela aprende que o universo é um ninho! Não importa que não seja! Não importa que os ninhos estejam todos destinados ao abandono e ao esquecimento! A alma não se alimenta de verdades. Ela se alimenta de fantasias. O ninho é uma fantasia eterna. Jung deveria tê-lo incluído entre os seus arquétipos! “O ninho leva-nos de volta à infância, a uma infância!“ (Bachelard). Aquela cena, a criança adormecida nos braços do pai, nos reconduz à cena de uma criancinha adormecida na estrebaria de Belém! Tudo é paz! Desejaríamos que ela, a cena, não terminasse nunca! Que fosse eterna!
A criança se sente segura se, de longe, ela vê que os olhos do seu pai a protegem. Olhos também são colos. Olhos também são ninhos. “Não tenha medo. Estou aqui! Estou vendo você“: é isso o que eles dizem, os olhos do pai.
No ir e vir da vida, pais perdem seus ninhos e no novo modelo de família, os pais também se perdem do ninho. E os papéis se invertem.
Num diálogo com um pai e lendo o que o pai escrevia sobre seus filhos na noite de natal, que há muito tempo tinham voado do ninho e chamava carinhosamente seus filhotes de “filhao” e “filhona”. Ao se referir ao primeiro ninho, ele relatou em uma carta de natal o quanto sentia saudades da ceia de natal em família com seus dois filhos e a mãe. Mas o mais emocionante e poético era o relato saudosista desse pássaro longe do ninho. Era o quanto ele observava que as mãos dos seus filhos a cada ano se tornavam diferentes. Esse olhar trazia a certeza de que logo voariam do ninho e que nada mais seria igual. Eles não acreditariam mais no Papai Noel e a cada ano ele perdia seu posto de pai herói e passava a tornar-se só um pai.
O tempo passa. Os pássaros tímidos aprendem a voar sem medo. Já não necessitam do olhar tranquilizador do pai. É a adolescência. Ser pai de um adolescente nada tem a ver com ser pai de uma criança.
Mas essas certezas se fazem distantes, diante da magia de cada ser de Natal. Alguém vôo do ninho e o ninho se tornou vazio, mas novos ninhos se formaram e eis a magia de volta. Novo pássaro preenche o novo ninho, mais mágico ainda. Eis o pássaro azul e a certeza do velho pai que a sua experiência jamais deixaria seu filhote voar do ninho. Na contramão da vida, o ninho torna-se vazio novamente. Alguém vôo do ninho novamente. E o pássaro azul se chama “filinha”.
       Em alguns momentos, em que esse pai saudosista precisava de um ninho, já cansado de voar de ninho em ninho e de árvore em árvore, após atravessar um oceano, com suas penas cansadas, o seu coração repousava dando-lhe um único sopro de vida: a lembrança das mãos de sua “filinha” ao tocar em suas mãos cansadas. E o seu olhar terno de filhote era a única fonte de vida que restou para esse pai fora do ninho.
       Nunca vi nada mais poético do que ouvir o relato de o pai saudoso falando do primeiro som de seu filhote. Sem que a filhinha nada soubesse ela foi a sobrevivência de seu pai fora do ninho. A magia de suas lindas tranças, a sua voz de menina e as suas inocentes brincadeiras. Ninho é sempre ninho. Sempre voaremos em volta deles.
Gibran Khalil Gibran escreveu, no seu livro O Profeta, um texto dedicado aos filhos. Não sei de cor suas precisas palavras. Mas vou tentar reconstruí-las. É aos pais que ele se dirige. “Vossos filhos não são vossos filhos. Vossos filhos são flechas. Vós sois o arco que dispara a flecha. Disparadas as flechas elas voam para longe do arco. E o arco fica só.“
Esse texto è em agradecimento a um pai que me deu a oportunidade de ver os seus relatos de pai e compreender o quanto o amor de pai nos constrói. E não importa quanto tempo pais e filhos dividiram esse ninho. Esse amor sempre vai reger nossas vidas.
Meu ninho também é vazio. Todos os pássaros voaram.

Jucilene Pereira Barros

Esse video é uma homenagem ao pásssaro azul citado no texto. Puro pensamento dialético do compositor. Que o pássaro azul continue azul e que o pai sempre passeie no velho ninho.

É necessário chorarmos por Amy Winehouse aqui no Brasil?

A cantora Amy Winehouse morreu em Londres, neste sábado, dia 23 de julho de 2011. Segundo o site Sky News, o cadáver da cantora foi encontrado em seu apartamento no norte de Londres.

A vida e a carreira de Amy Winehouse foram marcadas por escândalos e consumo de drogas. A partir da descoberta da morte da cantora a mídia brasileira não parou mais de falar sobre o assunto. Curiosamente a Globo News juntou seus melhores jornalistas para debater sobre a morte da cantora britânica. O Brasil parou para discutir essa triste fatalidade. Porque será que a Globo e os outros canais de televisão deram tanta ênfase a esse fato? Será que para segurar mais audiência para as fortunas que fazem em cima das tragédias humanas? Para essa mídia funerária quanto mais trágico, melhor.

Creio eu que não preciso ficar o dia inteiro diante da televisão, na internet ou em nenhum outro tipo de mídia. Basta olhar para os lados quando saio na rua para ver o número de crianças drogadas, consumidas pelo crack e por todos os tipos de drogas. Corpos sem alma. Almas essas que as drogas consumiram.

Quantos jovens brasileiros a nação perdeu para as drogas? Não que não sinta muito. Entristeço-me de ver a morte dessa jovem, mas prefiro continuar me preocupando e chamando a atenção de quem posso chamar, para debatermos a nossa própria realidade. E falarei da realidade de minha própria cidade. Moro num bairro, em Goiânia, da chamada classe média e todas as manhãs quando saio de casa para trabalhar e paro numa padaria ao lado, a primeira cena que vejo são crianças e adolescentes em bando, que passaram a noite nas ruas se consumindo nas drogas. Por um  outro lado, pela contramão da vida, pessoas em seus carros luxuosos, comprando todos os tipos de guloseimas para levar para casa, para alimentar seus filhos, de olhos fechados para essa realidade que vive ao lado. É como se esses bandos fossem invisíveis e não fizessem parte do censo. E esses são os chamados meninos de rua. Triste sinal de fracasso de modelos sociais impostos a nós. 

Toda criança deve pertencer a um lar. E um lar é diferente de uma casa. Dentro de um lar há uma constituição chamada família e a primeira base dessa constituição precisa ser uma proposta chamada Amor. Não o amor idealizado, mas o amor a partir do qual nos propomos todos os dias cuidarmos uns dos outros. 

Quantos jovens que poderiam estar se formando nas universidades para serem médicos, advogados, cientistas, jornalistas, professores etc e estão largados nas ruas sem nenhum futuro. Vidas jogadas fora. E aqueles que ficam diante da TV chorando por aquilo que está de fora da nossa realidade brasileira, preferem cada vez mais levantar os muros de suas casas, colocar cercas elétricas, morar em condomínios cada vez mais cheios de câmeras, investirem mais em tecnologias para segurança, blindarem seus carros, viverem em verdadeiras fortalezas, com câmeras para todos os lados, do que pensar em investir na maior segurança: o cuidado com o futuro das nossas crianças. Será que já banalizamos tudo?  Porque as crianças brilhantes são nossas, mas não nos esqueçamos que as errantes também, pois tenho a consciência de que nenhuma mulher pariu um filho para entregar “nas mãos das drogas”. 

Quantas famílias destruídas pelas drogas temos em nossa volta? Quantas vozes maravilhosas como a de Amy Winehouse se calaram para as drogas?  Antes de nem elas mesmas saberem que tinham tal dom, porque as drogas já fizeram delas mortas vivas.
É necessário que pensemos: quantas “Amy Winehouses” brasileiras perdemos todos os dias anonimamente? Mas em uma sociedade em que os profissionais, que em suas ciências discutem a sociedade, vivem em situações indignas, com baixos salários, desempenhando muitas atividades e se desgastando para sobreviver. Nossos filósofos, nossos sociólogos, antropólogos, desempregados ou ganhando “salários de fome” e sendo destratados, como se suas profissões não servissem para nada. Penso eu, sobre essa realidade, que para termos uma sociedade bem organizada é preciso valorizar nossos pensadores, para que a nossa juventude troque as drogas por um livro do Pablo Neruda e por uma canção do Chico Buarque.
Jucilene Pereira Barros

sábado, 23 de julho de 2011

Meu Araguaia da Guerrilha e do boto rosa



Durante a ditadura militar, vários partidos e organizações de esquerda optaram pelo caminho da luta armada. Tanto nas cidades como no campo, essa "oposição armada" ao regime marcou profundamente a história política recente do Brasil. No caso dos conflitos rurais, o mais importante - e até hoje mais controverso foi à chamada Guerrilha do Araguaia.
Ocorrida no início da década de 1970, a guerrilha levou este nome por ter sido travada em localidades próximas ao rio Araguaia, na divisa entre os atuais estados do Pará, Maranhão e Tocantins (na época, pertencente ao Estado de Goiás). A guerrilha foi organizada pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), que, desde meados dos anos 1960, já mantinha militantes na região do conflito.
               O objetivo do PC do B era angariar apoio da população local para, a partir do campo, enfrentar a ditadura, derrubá-la, tomar o Estado e fazer a revolução. Antes de definir-se pela luta armada, o partido apostou na estratégia de construção de uma frente ampla democrática contra a ditadura. Essa linha política, entretanto, não eliminou a opção armada.
Embora, até então, as ações armadas mais espetaculares tivessem ocorrido nas cidades. Parte da esquerda revolucionária acreditava que a guerrilha rural também era um passo decisivo rumo à revolução. No plano internacional, não faltavam às referências vitoriosas na China em 1949, com Mao Tsé-Tung, e em Cuba, uma década depois, com Fidel Castro e Che Guevara.
A versão mais aceita dá conta de que a guerrilha, ainda não deflagrada, teria sido descoberta pelos militares através de informações passadas por uma militante do PC do B. Foi assim que, em abril de 1972, o Exército chegou à região à procura dos guerrilheiros, que viviam misturados à população local.
Em razão disso, muitos corpos nunca foram - e possivelmente nunca serão - encontrados. Desde os anos 1980, os familiares dos guerrilheiros mortos vêm lutando, inclusive na Justiça, para que o Exército libere documentos que comprovem a morte dos parentes. Os militares, porém, continuam negando a existência de quaisquer documentos, o que já foi amplamente contestado. O desfecho desta batalha judicial certamente trará novos contornos para a história da ditadura militar no Brasil.
Nos últimos meses muito tem se falado sobre direitos existentes dos documentos da guerrilha. Essa é outra parte para colocarmos essa história bárbara e sangrenta em dia. É um débito da nação com homens e mulheres que deram suas vidas em prol da democracia no Brasil. Hoje essa democracia já esta estabelecida. Marchamos juntos em prol de uma soberania nacional e para isso é necessário que o país exponha toda a sua história, em respeito aos seus cidadãos mortos e as famílias dos mesmos.
Que ninguém esqueça que a guerrilha e toda a ditadura, não matou só os que morreram, os que ficaram também, que fizeram parte dessa atrocidade de alguma forma, como famílias, amigos e companheiros que lutaram juntos e sobreviveram. Os que ficaram não são pessoas comuns. Carregam em si um amargo na garganta ao imaginarem a crueldade que seus entes queridos passaram; a impossibilidade de enterrá-los e a incerteza do que realmente houve. Todos nós fomos violentados de alguma forma.
 Hoje como mulher, faço a minha própria guerrilha ao lado de companheiras e companheiros que comungamos da mesma luta. Em prol de direitos iguais para homens e mulheres. O meu olhar para o mundo perpassa a minha dor e transformo em luta. Baseado nisso não há tempo para discussões vazias e nem para cruzarmos os braços e permitirmos que a ditadura tome conta do nosso país novamente. Me preocupo quando vejo aqueles que estão no poder discutindo seu próprio poder. É uma obrigação de cada um de nós brasileiros não permitirmos nunca mais, algum tipo de ação reacionária.
Esse é o meu olhar, é a minha bandeira.  Queremos todos nós, povo brasileiro, que lutamos por um país soberano, a história da Guerrilha do Araguaia e de toda a Ditadura Militar em aberto, para que todos tenham acesso, inclusive que seja parte de disciplinas escolares.
Meu lindo Araguaia, rio da lenda do boto rosa e da realidade cruel da guerrilha. Da beleza da fauna e da flora amazônica, de homens e mulheres que têm em si a beleza indígena e a história desconhecida para muitos. Da importância do seu solo, testemunho de dor e grito, de valentes e sonhadores revolucionários que escreveram com sangue no teu solo a nossa história. Homens e mulheres que por amor a nossa pátria deram suas vidas. União de três estados, que ajudou a selar a democracia de todo o amado Brasil.

Jucilene Pereira Barros

quarta-feira, 20 de julho de 2011

FEDERAÇÃO DE MULHERES GOIANAS: uma história dedicada à causa da mulher.





       No dia 06 de setembro de 2011 acontecerá no teatro Rio Vermelho do Centro de Convenções de Goiânia,  o seminário MULHER, em parceria com o DCE-Universo e a FDIM/GO. Contaremos com as presenças de   representantes   de algumas federações de mulheres,  como as do Distrito Federal, do Rio Grande do Sul e de São Paulo. As mulheres da FDIM (Federação Democrática Internacional de Mulheres), como Márcia Campos, Gláucia Morelli, Rosa Mônica, Mari Perusso, Jane Ferreira e outras que pecarei em não citá-las, sempre  tiveram a mesma luta. Essas mulheres lutaram pela queda do regime militar, lutaram nas ruas pró movimentos como as diretas já, os caras-pintadas etc. Em Goiás Rosa Mônica, última presidente da FEDERAÇÃO DE MULHERES/GO, levou milhares de mulheres às ruas de Goiânia a favor do impedimento do ex-presidente Collor de Melo.  As representantes da Federação viajaram por vários países, dentre eles Venezuela, Cuba, África do Sul, representando a luta da mulher brasileira e desenvolvendo o feminismo, apoiadas por homens, que também dedicaram suas vidas à  luta pela  democracia e apoio à luta das mulheres. A FDIM, contexto da Federação de Mulheres Goianenses,  conta com o apoio de homens como o ex-presidente Lula, o presidente de Cuba, Fidel Castro, Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul  e de todos aqueles que dedicam suas vidas à paz mundial e ao processo democrático, à soberania dos países e à igualdade dos povos.

     O seminário voltará o olhar sobre a causa feminista, reforçado pela história de lutas dessas mulheres, que estão à frente dessa instituição há 64 anos.  Dentre as palestrantes contaremos com Gláucia Morelli (presidente da CMB -Confederação de Mulheres do Brasil), uma mulher que trabalha incessantemente por uma sociedade igualitária e justa para todos, co a Dra. Gláucia Teodoro dos Reis, presidenta da Semira/GO,  que desenvolve dentre suas atividades as seguintes ações: apoio ao enfrentamento a violência doméstica, exploração sexual das mulheres, apoio à rede de atenção ao enfretamento ao tráfico de pessoas etc, com Carmem Silvia, que ingressou na atividade político-partidária pelas mãos de Sarah Kubitschek, que lhe delegou a responsabilidade de presidir o comitê Jovem JK, no Estado de Goiás e hoje é presidenta da Secretaria de Ação Social de Aparecida de Goiania. Contaremos também  com a nossa  ministra da Secretaria de Politicas para as Mulheres, Iriny Lopes e a presença de representantes dos movimentos étnicos-raciais e também com Teresa Cristina Nascimento Sousa, carioca de nascimento e goiana de coração, formada em direito e militante da luta em prol da mulher e que  ocupa atualmente o cargo de  assessora especial para Assuntos da Mulher da Prefeitura de Goiânia.

    Esse seminário será um encontro para debater e refletir o avanço das mulheres no Brasil. Somos um país em construção, uma democracia jovem, conquistada também pela luta de muitas mulheres, inclusive as não citadas aqui nesse texto. Mulheres que lideraram a luta contra a ditadura, as diretas já, como a nossa companheira Rosa Mônica, aqui de Goiás, que à época do impedimento do então presidente Collor levou mais de mil mulheres às ruas de Goiânia e hoje continua a luta a favor da emancipação da mulher no mercado de trabalho, criando cooperativas e outros meio de inserção, na cidade de Pirinópolis. A Confederação de Mulheres tem  64 anos de luta  e conta com o apoio de muitos homens que apoiam  a causa das mulheres. Não há tempo para discutirmos mais um feminismo excludente, como apartheid entre homens e mulheres. Avançamos muito nos últimos 9 anos, rompendo paradigmas de políticas antigas, abrindo espaço para novas idéias com novos governos, em luta da soberania plena do país. Precisamos continuar a luta. Esta só começou. Esse avanço acontecerá a partir da filosofia libertadora do diálogo entre homens e mulheres, pais e filhos, mestres e alunos. O encorajamento da nossa juventude, a política séria, a partir da universidade, para não continuarmos a perder nossa juventude que se evade das escolas para as drogas e outras delinqüências. Nosso debate será para discutir e encaminhar pessoas em condições igualitárias, como o encorajamento de mulheres para compor cargos políticos e que possamos ter 50% de mulheres ocupando espaço na vida pública, passando por eleições,  no mercado de trabalho, com salários iguais e não nos esquecemos de que somos seres políticos. Discutir a fomentação  das leis já existentes,  mas  desconhecidas por muitas e avançarmos  em novas propostas. Nossas mulheres precisam de mais qualidade de vida, somos um número grande que sustenta as famílias, que sai de casa  para trabalhar, deixando nossos filhos em creches. Precisamos de creches que funcionem duas horas a mais, para que haja tempo das mães buscarem seus filhos. As mulheres precisam de maior acesso às clinicas terapêuticas para tratar homens adoecidos, que maltratam crianças e mulheres, mais apoio às mulheres violentadas, para rompermos com a co-dependência da violência  nas famílias, onde pai e mãe são violentos com os filhos e muitas vezes a roda gira  e os filhos se tornam violentos com os pais.

    A hora é agora, companheiras. Estamos no poder.  O exemplo desse fato é a nossa presidenta Dilma Roussef, que passou por todo tipo de violência no corpo e na alma na luta contra a ditadura militar,  mas não se deixou curvar diante das adversidade. A sua luta perpassou todo tipo de opressão e cremos  que  toda mulher brasileira precisa se apoderar a cada dia.

    Lutamos pela pedagogia da libertação de homens e mulheres, que pelo nosso ponto de vista, passa pelo avanço político, conhecimento das leis e dos direitos, uma sociedade justa, o resto caminhará junto. Um idéia de sociedade justa para todos da Federação de Mulheres Goianas, do Dce/Universo, que tem como presidente José Netho e vice-presidente Samara Cecílio e também de  todos aqueles companheiros que compartilham dessa luta.

    A todos/as somos mais do que agredecidas, contamos com a participação de todos/as após o seminário.

domingo, 17 de julho de 2011

Mulheres e os lobos

As mulheres correm com os lobos ou os lobos correm das mulheres? Eu sou La Loba. Toda mulher è La Loba



Estou só, quer dizer, tenho ódio ao amor que terei pelo desconhecido que está a caminho, um homem cujo rosto e cuja voz desconheço.
Sempre estive duramente acorrentada a essa fatalidade, amor. Muito antes que o homem surja em nossa vida, sentimos fisicamente que somos servas de uma doação infinita de corpo e alma.
O homem é apenas o copo que recebe o nosso veneno, o nosso conteúdo de amor. Não é por isso que o homem me atemoriza, quando aqui estou outra vez, só, em meu quarto: o que me arrepia de temor é este amor invisível e brutal como um príncipe.
Quando se fala em mulher livre, estremeço. Livre como o bêbado que repete o mesmo caminho de sua fulgurante agonia.
A uma mulher não se pergunta: que farás agora da tua liberdade? A nossa interrogação é uma só e muito mais perturbadora: que farei agora do meu amor? Que farei deste amor informe como a nuvem e pesado como a pedra? Que farei deste amor que me esvazia e vai remoendo a cor e o sentido das coisas como um ácido? É terrível o horror de amar sem amor como as feras enjauladas.
É quando o homem desaparece de minha vida que sinto a selvageria do amor feminino. Somos todas selvagens: são inúteis as fantasias que vestimos para o grande baile. Selvagem era a romana que ficava em casa e tecia; selvagens eram as mulheres do harém, as mais depravadas e as mais pudicas; selvagem, furiosamente selvagem, foi a mulher na sombra da Idade Média, na sua mordaça de castidade; mesmo as santas – e Santa Teresa de Ávila foi a mais feminina de todas – fizeram da pureza e do amor divino um ato de ferocidade, como a pantera que salta inocente sobre a gazela. E selvagem sou eu sob a aparência sadia do biquíni, olhando a mecânica erótica de olhos abertos, instruída e elucidada. Pois não é na voluntariedade do sexo que está a selvageria da mulher, mas em nosso amor profundo e incontrolável como loucura. O sexo é simples: é a certeza de que existe um ponto de partida. Mas o amor é complicado: a incerteza sobre um ponto de chegada.
Aqui estou, só no meu quarto, sem amor, como um espelho que aguarda o retorno da imagem humana. O resto em torno é incompreensível. O homem sem rosto, sem voz, sem pensamento, está a caminho. Estou colocada nesse caminho como uma armadilha infalível. Só que a presa não é ele – o homem que se aproxima – mas sou eu mesma, o meu amor, a minha alma. Sou eu mesma, a mulher, a vítima das minhas armadilhas. Sou sempre eu mesma que me aprisiono quando me faço a mulher que espera um homem, o homem. Caímos sempre em nossas armadilhas. Até as prostitutas falham nos seus propósitos, incapazes de impedir que o comércio se deixe corromper pelo amor. Quantas mulheres traçaram seus esquemas com fria e bela isenção e acabaram penando de amor pelo velhote que esperavam depenar. Somos irremediavelmente líquidas e tomamos as formas das vasilhas que nos contêm. O pior agora é que o vaso está a caminho e não sei se é taça de cristal, cântaro clássico, xícara singela, canecão de cerveja. Qualquer que seja a sua forma, depois de algum tempo serei derramada no chão. Os vasos têm muitas formas e andam todos eles à procura de uma bebida lendária.
Li num autor (um pouco menos idiota do que os outros, quando falam sobre nós) que o drama da mulher é ter de adaptar-se às teorias que os homens criam sobre ela. Certo. Quando a mulher neurótica por todos os poros acaba no divã do analista, aconteceu simplesmente o seguinte: ela se perdeu e não soube como ser diante do homem; a figura que deveria ter assumido se fez imprecisa.
Para esse escritor, desde que existem homens no mundo, há inúmeras teorias masculinas sobre a mulher ideal. Certo. A matrona foi inventada de acordo com as idéias de propriedade dos romanos. Como a mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita, muito docilmente a mulher de César passou a comportar-se acima de qualquer suspeita. Os Dantes queriam Beatrizes castas e intocáveis, e as Beatrizes castas e intocáveis surgiram em horda. A Renascença descobriu a mulher culta, e as renascentistas moderninhas meteram a cara nos irrespiráveis alfarrábios. O romancista do século passado inventou a mulherzinha infantil, e a mulherzinha infantil veio logo pipilando.
O tipos vão sendo criados indefinidamente. Médicos produzem enfermeiras eficientes e incisivas como instrumentos. Homens de negócios produzem secretárias capazes e discretas. As prostitutas correspondem ao padrão secreto de muitos homens. Assim somos. Indiquem-nos o modelo, que o seguiremos à risca. Querem uma esposa amantíssima – seremos a esposa amantíssima. Se a moda é mulher sexy, por que não serei a mulher sexy? Cada uma de nós pode satisfazer qualquer especificação do mercado masculino.
Seremos umas bobocas? Não. Os homens são uns bobocas. O homem é que insiste em ver em cada uma de nós – não a mulher, a mulher em estado puro ou selvagem, um ser humano do sexo feminino – o diabo, a vagabunda, a lasciva, o anjo, a companheira, a simpática, a inteligente, o busto, o sexo, a perna, a esportista… Por que exige de nós todos os papéis, menos o papel de mulher? Por que não descobre, depois de tanto tempo, que somos simplesmente seres humanos carregados de eletricidade feminina?

Eis aqui minha querida psicanalista Maria Josè  Pitagoras

Páginas